Painel da categoria

Trabalho doméstico no Brasil

Dados da PNAD Contínua, Censo 2022 e ILOSTAT — em colaboração com o STDMSP e a pesquisa de Jean-François Mayer (Concordia).

Como você se compara? →

Somos 5,5 milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil. Uma em cada dez mulheres no mercado de trabalho do país é trabalhadora doméstica. Esta página conta quem nós somos, onde estamos e o que mudou — em números, com fontes.

Story mode is currently available in Portuguese only. Switch to PT to see the guided narrative, or stay in English for the researcher view.
Filtros: afetam os indicadores e o gráfico por UF
5,5 milhões · 92% mulheres · 7 em cada 10 negras
Quem somos. Somos 5,5 milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil. 92 em cada 100 somos mulheres, e 7 em cada 10 somos negras (pretas + pardas). Sustentamos uma em cada dez mulheres trabalhadoras do país.
Trabalhadoras(es) domésticas(os)
milhares de pessoas, total Brasil
Mulheres
% do total
Negras (pretas + pardas)
% do total
Com carteira assinada
% do total

Total de trabalhadoras(es) domésticas(os) ao longo do tempo

PNAD Contínua trimestral · em milhares de pessoas

Sem dados ainda. Rode o ETL para preencher.

Taxa de formalização (carteira assinada)

% com carteira assinada · referência: EC 72/2013, LC 150/2015

Apenas 24% com carteira · 76% na informalidade, 11 anos depois da LC 150/2015
Quem tem direitos. Apenas 24% de nós temos carteira assinada. A LC 150 — a Lei das Domésticas — completou 11 anos, e está sendo descumprida: três em cada quatro de nós continuam na informalidade, sem FGTS, sem férias garantidas, sem contribuição previdenciária regular.
Sem dados ainda.

Rendimento médio mensal real

PNAD Contínua trimestral · setor "Serviços domésticos" · em reais constantes

R$ 1 394/mês · negras recebem R$ 84 para cada R$ 100 das não-negras
Quanto ganhamos. O salário médio mensal é de R$ 1 394 — apenas 24% acima do mínimo. Quem é negra recebe R$ 84 para cada R$ 100 que recebe quem não é negra. Esse hiato racial não diminuiu em 13 anos.
Sem dados ainda.

Mensalistas vs. diaristas

% diaristas (mais de 1 domicílio) · proteção mais fraca sob LC 150/2015

Sem dados ainda.

Composição por cor/raça

% do total de trabalhadoras(es) domésticas(os)

Em 13 anos: +5,2 pp negras · ~92% mulheres (estável) · hiato estável a ~84%
O que mudou. Em 13 anos somos mais negras, somos quase só mulheres como antes, e ganhamos a mesma fração do que ganham as não-negras. Mais negras na categoria — mas não mais valorizadas.
Sem dados ainda.

Hiato salarial racial

trabalhadoras domésticas negras vs. não-negras · fonte: DIEESE

Sem dados ainda.

Para cada R$ 100 recebidos por uma trabalhadora doméstica não-negra, uma trabalhadora doméstica negra recebe R$ 76.

Jornada média no Brasil

horas habituais por semana no trabalho principal · PNADC microdados V4039 · linha pontilhada = limite legal de 44h (LC 150/2015 Art. 2º)

Sem dados ainda.

% contribuindo para previdência (Brasil)

% de trabalhadoras domésticas que contribuíram para a previdência na semana de referência · PNADC microdados V4032 · por raça

Sem dados ainda.

Mapa: composição racial por UF

% pretas + pardas entre trabalhadoras(es) domésticas(os), por estado · PNADC microdados · computado

SP: 1,26 milhão (a maior categoria do país) · BA: 90% negras (pico nacional)
Onde estamos. Estamos em todos os 27 estados, mas a categoria não é homogênea. Em São Paulo somos 1,26 milhão — a maior categoria do país. Na Bahia, 9 em cada 10 trabalhadoras domésticas são negras; em Santa Catarina, apenas 3 em cada 10. A geografia do trabalho doméstico segue a geografia histórica do Brasil.
Período: · use o filtro de Ano acima para mudar
Carregando mapa…

Fonte: PNAD Contínua microdados (IBGE), agregado pela equipe do projeto. Linha de base populacional: o tooltip mostra também a % pretas + pardas na população geral de cada estado (computada da mesma PNADC, sem filtro de categoria) e o índice de sobrerrepresentação (% no setor ÷ % na população geral). Um estado pode ter baixa % no setor e ainda assim apresentar alta sobrerrepresentação se sua população geral tiver poucas pretas + pardas — é o caso de Santa Catarina (~25% no setor / ~23% na população geral). Ver §4.5 da metodologia. UFs com amostra pequena (e.g., RR, AP) podem ter estimativas mais ruidosas.

Distribuição por UF

milhares de pessoas · top 10 UFs · trimestre mais recente disponível

Sem dados ainda.

Comparativo internacional — América Latina

ILOSTAT · trabalhadoras(es) domésticas(os) por país, milhares

Sem dados ainda.

Status legal — Convenção 189 da OIT

Ano de ratificação por país. A C189 (Convenção sobre Trabalhadoras e Trabalhadores Domésticos, 2011) estabelece direitos iguais aos de outras categorias.

Brasil ratificou em janeiro de 2018, três anos após a entrada em vigor da LC 150/2015 — ou seja, a legislação interna precedeu o compromisso internacional. México ratificou apenas em julho de 2020. Uruguai foi o primeiro país do mundo a ratificar, em junho de 2012. Fonte: NORMLEX (OIT).

Mobilização e atualizações

Eventos recentes que tocam a categoria — políticas, fiscalização, mobilização sindical. Conteúdo editorial; atualizado conforme novos eventos surgem.

Perfil socioeconômico

Quem somos para além da categoria de trabalho — escolaridade, família, moradia. Cuts derivados dos microdados PNADC, no trimestre fixo mais recente disponível. Família e moradia chegam nas próximas atualizações.

Escolaridade — negras × não-negras

% dentro de cada grupo · PNADC microdados VD3004 · trimestre fixo mais recente

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE), variável VD3004 (nível de instrução mais elevado alcançado), agregada pela equipe do projeto. As categorias seguem a convenção DIEESE (Sem instrução + Fundamental incompleto agrupados em "Fundamental incompleto"; Superior incompleto + completo agrupados em "Superior").

Posição no domicílio — negras × não-negras

% dentro de cada grupo · PNADC microdados V2003 · trimestre fixo mais recente

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE), variável V2003 (condição no domicílio), agregada pela equipe do projeto. As 17 categorias nativas são colapsadas em 4 buckets — chefe, cônjuge, filha(o)/enteada(o), outro/agregada. DIEESE Infográfico abr/2026 reporta 46% chefes de família entre trabalhadoras domésticas.

Moradia — negras × não-negras

% dentro de cada grupo · PNADC Anual (Visita 1), variável S01017 · cadência anual

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC Anual — Visita 1 (IBGE), variável S01017 (forma de habitação do domicílio), agregada pela equipe do projeto. Cadência ANUAL (uma observação por ano, não trimestral como os demais cortes). As 7 categorias nativas são colapsadas em 4 buckets — próprio (já pago + em pagamento), alugado, cedido pelo empregador (trabalhadoras residentes), cedido/outro. A categoria "cedido pelo empregador" é mantida em separado por relevância política: identifica as empregadas domésticas residentes, historicamente menos protegidas.

O paradoxo do sustento

Quem sustenta quem

Somos chefes de família com mais frequência do que as não-negras na mesma categoria — e ganhamos menos por isso. A precariedade não se distribui ao acaso: ela cai com mais peso sobre quem já sustenta mais gente.

No 1T 2026, 60% das trabalhadoras domésticas negras eram chefes de família, contra 55% das não-negras. No mesmo trimestre, o salário médio das chefes negras ficou em , contra entre as chefes não-negras. A razão é — para cada R$ 100 que uma chefe não-negra recebe, uma chefe negra recebe esse valor.

A leitura teórica é antiga: Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Joaze Bernardino-Costa descreveram a centralidade econômica da mulher negra no domicílio brasileiro. Adriana Lopes e Yannet Lara articularam o paradoxo qualitativamente. Os números cruzados nunca foram publicados pelo DIEESE — esta é a primeira vez que aparecem disaggregados por raça e posição no domicílio simultaneamente.

Salário médio mensal por posição no domicílio e raça

R$ nominais (rendimento habitual VD4019) · PNADC microdados · trimestre fixo mais recente

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE) — V2003 (condição no domicílio) cruzada com VD4019 (rendimento habitual). Agregação pela equipe do projeto. Cálculo: média ponderada do rendimento entre trabalhadoras(es) domésticas(os) com rendimento > 0, dentro de cada célula (raça × posição). Valores em reais nominais (não deflacionados); para comparação intertemporal use o gráfico "Rendimento médio mensal real" na seção principal.

Coortes e mobilidade

Onde estão as jovens?

O Infográfico DIEESE abr/2026 mostra 43% entre 45 e 59 anos, 13% com 60 ou mais, e apenas 12% até 29 anos. A categoria está envelhecendo, e esse envelhecimento conta uma história de mobilidade fora do trabalho doméstico — quando as gerações mais novas não substituem as mais velhas, alguma coisa mudou.

No 1T 2026, das trabalhadoras domésticas negras tinham até 29 anos, contra das não-negras. Ao longo dos últimos 14 anos, essa parcela caiu para ambos os grupos — a base da pirâmide etária da categoria está mais estreita do que era em 2012. As jovens negras que não entram no trabalho doméstico estão indo para outros setores; entender para onde é uma pergunta empírica que o painel agora abre.

A categoria envelhecida cruza várias literaturas: Heleieth Saffioti, sobre o trinômio raça-gênero-classe e a continuidade histórica da trabalhadora doméstica; Louisa Acciari, sobre os movimentos sindicais que precisam de reposição geracional para sobreviver politicamente; o IPEA, sobre mobilidade ocupacional de mulheres negras jovens. O dado bruto que sustenta as três conversas é o mesmo gráfico aqui ao lado.

% até 29 anos ao longo do tempo, por raça

PNADC microdados V2009 · trimestre fixo, 2012Q1 → presente

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE), variável V2009 (idade na data de referência), agregada pela equipe do projeto em buckets alinhados ao DIEESE (até 29 / 30–44 / 45–59 / 60+). A leitura recomendada é a inclinação das linhas — se ambas caem, a categoria está perdendo a base etária inferior em ambos os grupos raciais; se uma cai mais rápido que a outra, há um padrão racial na desistência geracional. DIEESE Apr/2026 reporta 12% até 29 anos para a categoria como um todo.

Continuidade histórica

O resíduo da casa-grande

A trabalhadora doméstica residente — que mora na casa onde trabalha — é a figura mais antiga da categoria. É o vestígio empiricamente rastreável daquilo que Joaze Bernardino-Costa chamou de atualização da casa-grande/senzala: uma relação patrimonial onde moradia, vínculo de trabalho e dependência se confundem.

Nacionalmente, esse contingente é pequeno — em torno de das trabalhadoras domésticas em 2024, segundo a PNADC Anual. Mas pequeno não é insignificante: são de pessoas, e a distribuição geográfica revela onde a continuidade ainda pesa. As barras ao lado mostram a parcela residente por estado; está no topo da lista, e a diferença entre os estados do Norte/Nordeste e os do Sul reflete a geografia histórica do trabalho doméstico no Brasil.

A leitura é clara em Lélia Gonzalez (sobre o lugar simbólico da empregada residente no imaginário das classes médias urbanas), em Heleieth Saffioti (sobre a continuidade patrimonial do trabalho doméstico), e em Sueli Carneiro (sobre a centralidade da mulher negra nessa estrutura). O painel não publica um dado novo sobre a categoria como um todo — publica a primeira visualização sistemática da geografia desse resíduo, que a DIEESE não desagrega por UF.

% residentes por UF

% trabalhadoras(es) domésticas(os) em moradia cedida pelo empregador · PNADC Anual Visita 1, S01017

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC Anual — Visita 1 (IBGE), variável S01017 (forma de habitação do domicílio), agregada pela equipe do projeto por UF. UFs com menos de 30 observações amostrais não-ponderadas são omitidas para evitar estimativas ruidosas (pequenos estados do Norte podem desaparecer da lista por essa razão).

Geografia da fiscalização

A geografia do descumprimento

A cifra nacional — apenas 24% com carteira assinada — esconde uma distribuição. A LC 150 não falha de modo uniforme: falha em alguns estados muito mais que em outros, e dentro de cada estado falha de forma desigual entre raças. Onde a fiscalização precisa entrar primeiro é uma pergunta empírica.

Cada ponto no gráfico ao lado é um estado. A coordenada horizontal é % com carteira entre não-negras; a vertical é o mesmo recorte entre negras. A diagonal pontilhada marca onde os dois grupos teriam a mesma taxa de formalização. Quase todos os pontos estão abaixo dela. A distância vertical entre o ponto e a diagonal é o hiato racial no cumprimento da LC 150 dentro daquele estado. é o estado com a maior taxa entre as negras; é o de menor. Nacionalmente, a meta legal é 100% — o canto superior direito do gráfico, vazio.

A literatura sobre compliance gap em trabalho doméstico — Louisa Acciari sobre fiscalização e movimentos sindicais, Pinheiro et al. (IPEA) sobre as falhas de implementação da LC 150, e o relatório do MTE de abril de 2026 sobre a Campanha Nacional pelo Trabalho Doméstico Decente — converge em um diagnóstico: a expansão jurídica de 2013–2015 não veio acompanhada de capacidade de fiscalização. A Conadon, criada em 2026 no MTE, é o primeiro arranjo institucional dedicado a essa categoria. O gráfico ao lado mostra empiricamente onde a Conadon teria mais impacto se priorizasse por escala do descumprimento.

% com carteira por UF — negras × não-negras

PNADC microdados · trimestre fixo mais recente · cada ponto = uma UF · tamanho do ponto = amostra não-ponderada

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE), VD4009 (posição na ocupação — códigos 03 com carteira e 04 sem carteira) cruzada com V2010 (cor/raça), agregada pela equipe do projeto por UF. UFs com menos de 30 observações não-ponderadas no recorte race='total' são omitidas. A linha diagonal pontilhada representa "sem hiato racial" — uma UF sobre ela teria a mesma taxa de formalização entre negras e não-negras. UFs abaixo da diagonal: negras mais informais; acima: padrão inverso.

Política e piso salarial

O efeito do piso

A razão salarial negras / não-negras passou de 84% em 2025 para 87% em 2026 segundo o DIEESE — o estreitamento mais relevante observado em 14 anos. No seminário MTE × DIEESE de abril, gestoras públicas atribuíram esse movimento explicitamente à retomada da política de valorização do salário mínimo em 2023. Se for verdade, é um caso raro em que uma única alavanca de política produziu efeito de raça mensurável em poucos anos.

O teste é direto: se o piso explica o estreitamento, as duas linhas no gráfico ao lado deveriam subir juntas a partir de 2023. A linha vermelha é a razão salarial; a linha cinza é a trajetória nominal do salário mínimo brasileiro. Em 2026, a razão chega a , enquanto o salário mínimo nominal vai a . Quando o piso sobe rápido, a parte de baixo da distribuição salarial — onde a maioria das trabalhadoras negras está — é empurrada para cima, comprimindo a razão. Quando o piso fica congelado, a razão tende a estagnar.

A leitura econômica está em Saboia (sobre os transbordamentos do salário mínimo para a base da distribuição), em Manzano-Munguía (sobre piso salarial e desigualdade racial em mercados informais), e em uma linha mais ampla de pesquisa do IPEA sobre os efeitos da valorização de 2007-2014 e a interrupção 2017-2022. Não é uma decomposição econométrica — para isolar o efeito do piso de outros choques no mesmo período (recuperação pós-pandemia, política de cuidados, Conadon) seria preciso uma regressão. O gráfico ao lado é um teste visual de consistência: as linhas sobem juntas? Se sim, a hipótese ganha plausibilidade; se não, ela perde.

Razão salarial × salário mínimo, 2012–2026

eixo esquerdo: razão negras / não-negras (%) · eixo direito: salário mínimo nominal (R$)

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE), razão calculada como mean_wage_brl(preta_parda) ÷ mean_wage_brl(nao_negras) por trimestre, usando o recorte sex='T', formality='total'. Salário mínimo nominal: valores oficiais publicados pelo governo brasileiro (Decreto anual). Valores nominais — ambos os eixos não são deflacionados. Para a leitura intertemporal de salário real, use o gráfico "Rendimento médio mensal real" na seção principal (que usa a Tabela PNADC-6391, deflacionada pelo IBGE).

Refinamento analítico

Hiato por hora — o que sobra do hiato mensal

O hiato salarial mensal mistura duas coisas: quanto se paga por hora trabalhada e quantas horas se trabalha. Se as trabalhadoras não-negras concentram-se em mensalistas (jornadas mais longas) e as negras em diaristas (jornadas mais curtas e múltiplos patrões), o hiato mensal exagera o hiato de preço.

Cruzando VD4019 (rendimento mensal) com V4039 (horas habituais semanais × 4,33), obtemos a remuneração por hora individual; a média ponderada por raça mostra o quanto o "preço da hora" difere entre os dois grupos. No último trimestre, a razão MENSAL ficou em e a razão por HORA em . A diferença entre as duas razões — visível como o espaço entre as linhas no gráfico — é a parte do hiato que vem de composição, não de preço.

Esta é a refinaria analítica que Jean-François Mayer pediu: se quase todo o hiato mensal sobrevive na razão por hora, o mecanismo é precificação racializada do trabalho. Se a razão por hora é substancialmente mais alta que a mensal, o mecanismo é mais bem descrito como segregação ocupacional dentro da categoria (negras como diaristas, não-negras como mensalistas), e a política pública apropriada é diferente — favorece formalização de diaristas (LC 150 estendida), não negociação coletiva sobre tabela horária.

Razão salarial negras / não-negras — mensal × por hora

PNADC microdados · trimestre fixo, 2012Q1 → presente · mesma escala de %

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE). Razão mensal: mean_wage_brl(preta_parda) ÷ mean_wage_brl(nao_negras). Razão por hora: média ponderada de wage/(hours×4,33) por trabalhadora individualmente, depois razão entre os dois grupos. Cobertura: trabalhadoras com rendimento > 0 e jornada habitual em (0, 98h/semana). 4,33 semanas/mês é a conversão padrão (52 semanas / 12 meses).

Reforma trabalhista e o mensalismo racializado

Quem perde a carteira: a reforma vista pelo contrato mensalista

A leitura usual da reforma trabalhista trata a formalização como vetor de proteção. A hipótese DiD do Prof. Jean-François Mayer começa com uma previsão direta: a Reforma Trabalhista de 2017, junto com EC 72/2013 e LC 150/2015, teria empurrado trabalhadoras negras para o contrato diarista informalizado de forma mais intensa do que para as não-negras. Esta seção testa essa previsão diretamente — e a refina.

Ponto de partida: a trajetória da diarização por raça

O gráfico a seguir mostra a % de trabalhadoras domésticas atuando como diaristas, separadas por raça, ao longo de 56 trimestres (1T 2012 → 1T 2026), com marcações nas inflexões legislativas. Em 2026, das negras e das não-negras trabalham como diaristas. O resultado central: a entrada em diarismo aconteceu em ritmo similar para as duas raças, com hiato estável de ~4 pontos percentuais ao longo do período e sem aceleração visível a partir de 4T 2017. O choque dominante na série é a pandemia (1T 2020), não a reforma. A hipótese mais direta de Mayer — desaceleração racialmente diferencial em diarismo — não se sustenta no contrato em si.

% diaristas por raça, 2012–2026

PNADC microdados V4024 · diarista = serviço em mais de 1 domicílio · trimestre fixo

Sem dados ainda.

Onde a história racializada vive: convergência ao piso do mensalismo

Se a entrada em diarismo é racialmente simétrica, onde está o efeito racializado da reforma? Os dois gráficos abaixo decompõem o contrato mensalista em formal (com carteira) e informal (sem carteira), separados por raça, ao longo dos mesmos 56 trimestres. À esquerda, o mensalismo formal desaparece: trabalhadoras não-negras saíram de cerca de 30% em 2012 para em 2026 — perda superior a 10 pontos percentuais de proteção. Trabalhadoras negras saíram de 25% para , perdendo metade disso. As duas linhas convergem por baixo: em 2026, as duas raças têm a mesma taxa de formalização (~20%). À direita, o mensalismo informal persiste: cerca de metade das trabalhadoras negras () trabalham nesse regime em 2026, exatamente como em 2012. Esse é o piso da informalidade — herdeiro direto das relações coloniais de trabalho doméstico (ver Tema 3) — e ele não se move. Marcas verticais nos três gráficos: EC 72 (2013), LC 150 (2015), Reforma Trabalhista (4T 2017), ratificação brasileira da C189 (1T 2018), pandemia (1T 2020).

Mensalismo formal (com carteira), 2012–2026

% das trabalhadoras domésticas em mensalismo formal · por raça · trimestre fixo

Sem dados ainda. Aguardando backfill com V4024.

Mensalismo informal (sem carteira), 2012–2026

% das trabalhadoras domésticas em mensalismo informal · por raça · trimestre fixo

Sem dados ainda. Aguardando backfill com V4024.

Onde a carteira desapareceu: o gradiente geográfico

A convergência ao piso não foi uniforme no território. O Rio de Janeiro tem o gradiente mais extremo: trabalhadoras não-negras saíram de 40% para 20% de carteira assinada — mais da metade da proteção perdida. Em São Paulo, o padrão racial nacional se inverte no ponto de partida: em 2012, trabalhadoras negras tinham mais mensalismo formal (43%) do que as não-negras (42%) — o mercado urbano paulista historicamente puxou trabalhadoras negras para o contrato protegido. Ambas as raças perdem ~14pp até 2026. Pernambuco mostra a convergência típica (perda maior entre não-negras, ~-12pp; menor entre negras, ~-6pp). Minas Gerais inverte a direção racial do recorte: aqui as trabalhadoras não-negras ficam virtualmente inalteradas (-0,5pp) enquanto as negras perdem 4pp de carteira — o oposto do padrão BR-wide e dos outros três estados. MG é o único estado do recorte em que a perda de formalização recai principalmente sobre as trabalhadoras negras, e merece uma investigação separada — possivelmente um efeito de coorte na região metropolitana de Belo Horizonte. Esta leitura conecta-se diretamente ao Tema 4 (geografia do cumprimento da LC 150): onde a fiscalização sempre foi mais forte, a desformalização também foi mais profunda.

Mensalismo formal — perda em pontos percentuais, 2012Q1 → 2026Q1

% com carteira (proxy do mensalismo formal) · 4 estados · trimestre fixo

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados (IBGE), agregação UF × raça × formalidade de fact_workers pela equipe do projeto. Nota metodológica: o recorte UF usa "% com carteira" como proxy de "% mensalismo formal" — a diferença é o pequeno bucket de diaristas com carteira (~3–4pp). O recorte preciso (via fact_contract com granularidade UF) está em fila como extensão futura do pipeline; ver §3.19 da metodologia.

Onde o preço da hora racializa: dentro do contrato diarista

A última peça do quebra-cabeça é o preço da hora. Quando comparamos o que uma trabalhadora negra ganha por hora dentro do mesmo tipo de contrato, descobrimos algo crucial: o mensalismo equipara salários por hora; o diarismo racializa. Dentro do contrato mensalista (que cobre ~75% da categoria), trabalhadoras negras recebem 96,6% do que recebem trabalhadoras não-negras por hora — um hiato praticamente fechado. Dentro do contrato diarista (~25% da categoria), elas recebem apenas 84,3% — um desconto racial de cerca de 16% por hora pelo mesmo tipo de serviço. Isso reformula o que a expansão do diarismo pós-reforma significou: para trabalhadoras não-negras, o diarismo paga R$ 14,12 por hora contra R$ 10,68 do mensalismo — um prêmio limpo. Para trabalhadoras negras, paga R$ 11,90 contra R$ 10,32 — um prêmio apenas marginal. A discriminação racial não está em quem se torna diarista (as taxas são similares por raça), mas em quanto se paga a cada uma pela mesma hora.

Hiato salarial por hora dentro do contrato — 1T 2026

% da remuneração por hora · trabalhadora negra ÷ trabalhadora não-negra × 100 · snapshot do último trimestre disponível

Sem dados ainda.

Fonte: PNADC microdados 1T 2026, agregação BR-wide (sexo='T', V4024 × VD4009 × V2010) pelo script etl/probe_wage_contract.py. Snapshot trimestral único; extensão para série temporal completa (fact_wages com dimensão contrato) está na fila como tarefa #70. Amostras: mensalismo n=5.254 (negras) + 1.917 (não-negras); diarismo n=2.158 (negras) + 954 (não-negras). Ver §3.20 da metodologia.

Fonte (painéis BR-wide acima): PNADC microdados (IBGE), variável V4024 (serviço doméstico em mais de 1 domicílio — diarista vs. mensalista) cruzada com VD4009 (posição na ocupação — com vs. sem carteira), agregada por raça pela equipe do projeto. População: trabalhadoras(es) domésticas(os) com VD4009 ∈ {03 = com carteira, 04 = sem carteira}. Pesos amostrais V1028 aplicados.

Este painel refina a hipótese DiD (difference-in-differences) do Prof. Jean-François Mayer. A leitura inicial — que a reforma teria empurrado trabalhadoras negras para o trabalho diarista informalizado — não se confirma visualmente no contrato em si: a transição para diarista ocorreu em ritmo similar nas duas raças. A história racializada vive no contrato mensalista: a reforma de 2017, junto com EC 72 e LC 150, contribuiu para a erosão do mensalismo formal — mas atingiu mais fortemente as trabalhadoras não-negras, que tinham mais proteção a perder. Para as trabalhadoras negras, o regime informal já era a regra estrutural antes da reforma — herança da casa-grande e do trabalho residente. A literatura sobre informalização racializada (Pinheiro et al., IPEA; Acciari; Hirata; Bernardino-Costa) prevê esse padrão estrutural; a inferência causal exige uma regressão DiD com janela 2015Q3–2019Q4 (excluindo COVID) — implementação no apêndice metodológico do capítulo em preparação.

Organização sindical

Quem se filia ao sindicato — e por quê

A categoria doméstica tem sindicato constitucionalmente reconhecido, mas a filiação efetiva é entre as mais baixas do trabalho brasileiro. A trajetória 2012–2024 da PNADC Anual (variável V4097) revela três achados que desafiam o senso comum sobre formalidade e sindicalização: (i) o gradiente formalidade-filiação se inverte — trabalhadoras sem carteira filiam-se em taxas mais altas que as com carteira; (ii) o subgrupo mais isolado da estrutura sindical é o de mulheres negras com carteira; (iii) o entorno da STDMSP filia em 31,2% (Pesquisa B Q32, n=231) — cerca de 24× o piso absoluto da categoria.

Baseline nacional (2024)
domésticas filiadas a sindicato
Piso absoluto (2024)
negras com carteira (subgrupo mais isolado)
Entorno STDMSP
Pesquisa B Q32 · n=231
Razão piso → teto
proximidade física × baseline estrutural

Filiação sindical 2012–2024 · por raça e formalidade

% filiadas a sindicato · PNADC Anual Visita 1 · variável V4097 · ponderado por V1032

Sem dados ainda.

Marcas verticais: PEC 72 (2013), LC 150 (2015), Reforma Trabalhista (2017). Banda cinza 2020–2021: PNADC Anual interrompida durante a pandemia. Pico em 2016 (3,56%) coincide com o ápice da formalização constitucional; piso histórico em 2023 (2,00%) seguido de recuperação parcial em 2024 (2,60%). Note que negras × sem carteira (linha contínua escura) está consistentemente acima de negras × com carteira (linha tracejada escura): para mulheres negras, formalidade não converte em filiação, ela reduz a probabilidade. Para não-negras o efeito da formalidade é o esperado (positivo) apenas nos anos mais recentes.

Fonte: PNADC Anual Visita 1, variável V4097 ("Na semana de referência era associado a algum sindicato?"). Anos 2020 e 2021 indisponíveis na PNADC-A V1 por interrupção de campo COVID. Cifra do entorno STDMSP a partir da Pesquisa B (2021–23, entrevistas presenciais, n=241; Q32 com 95,9% de cobertura). Processamento: etl/union_annual_timeseries.py e etl/probe_survey_b_union.py.

Foco no estado de São Paulo

Recorte específico do estado onde a STDMSP atua. Todos os números desta seção são agregados a partir dos microdados da PNAD Contínua, restritos à UF=SP. Itens fora deste recorte (cumprimento da LC 150 em SP, hiato salarial estadual, jornada e contribuição previdenciária) exigirão extensão da pipeline e ficam sinalizados ao final.

Trabalhadoras em SP
milhares · trim. mais recente
% do total Brasil
SP / Brasil
% Negras em SP
vs. ~69% nacional
Variação 2012 → 2025
no nº absoluto de trabalhadoras

SP × Brasil — trajetória (PNADC microdados)

duas linhas com escalas independentes para que o efeito da pandemia em SP fique visível

Sem dados ainda.

Composição racial em SP ao longo do tempo

% por cor/raça · trimestres fixos 2012–2025

Sem dados ainda.

Sudeste — comparação entre estados

SP, MG, RJ, ES · trim. mais recente · total em milhares e % negras lado a lado

Sem dados ainda.

Jornada média em SP

horas/semana · trabalhadoras domésticas em SP, por raça · linha pontilhada = limite legal de 44h

Sem dados ainda.

% contribuindo para previdência em SP

% das trabalhadoras domésticas em SP que contribuem para a previdência (V4032) · por raça

Sem dados ainda.

O que esta seção ainda não traz. Salário médio em SP e hiato salarial racial em SP exigem agregar a variável de rendimento (VD4019) por UF — recorte ainda não computado para evitar publicar números antes de reconciliação. Hoje a seção cobre: composição racial, jornada média e previdência. Próximo recorte a priorizar com a STDMSP: salário em SP, ou taxa de formalização em SP (carteira por UF).

Sobre os dados

Os números deste painel vêm da PNAD Contínua (IBGE), do Censo Demográfico 2022 e do ILOSTAT. A categoria "trabalhador(a) doméstico(a)" segue a definição do IBGE, que inclui empregadas(os) mensalistas e diaristas, com ou sem carteira de trabalho assinada.